O resgate da identidade e o desenvolvimento social através da musica

Todo ser humano, em essência, caminha em busca de si mesmo, elegem papéis, situações, objetos, pessoas, como ponte para se encontrar, buscam símbolos que representem seus desejos e ânsias. Viver em sociedade significa, dentro de um contexto relacional, representar papéis. Em cada ambiente específico, nas relações hierárquicas, sejam na família, afetivas e/ou profissionais, até mesmo nas relações consigo mesmo, todo o tempo o ser humano se relaciona através de papéis.

Da identificação real e da qualidade com a qual esses papéis são vividos modifica-se totalmente a saúde e o equilíbrio físico, psíquico e espiritual do indivíduo. Nem sempre este tem consciência do processo vivido. Muitas vezes cumpre e vive o que lhe é imposto, aprovando e atestando como se fosse a sua opção. Luta por ela, sem nem ao menos ter questionado se é coerente com seu querer íntimo, com suas crenças e valores.

Segundo FREGMANN (1986 e 1987) nesta busca do “si mesmo“, muitas vezes inconsciente e/ou mal direcionada, a pessoa se afasta do próprio eixo por colocar seu foco no “outro“ no externo e não em si mesmo. A falta de contato com seu ritmo interno e a dificuldade da auto-escuta dá origem aos distúrbios, desequilíbrios e patologias diversas, refletindo também no seu mundo externo. De acordo com a musicoterapia, o resgate da individualidade e identidade se dá a partir da retomada do próprio ritmo, promovendo então, a saúde, o equilíbrio físico e o psíquico.

Para que isto possa acontecer é preciso abrir caminhos onde o indivíduo possa se expressar e elaborar seus conteúdos, partir para um trabalho de auto-percepção e autoconhecimento. A musicoterapia utiliza duas linguagens extremamente importantes: a música- e elementos a ela relacionados que estão presentes interna e externamente no próprio indivíduo e suas manifestações culturais e sociais; e a terapia (que tem como um dos principais objetivos a busca da consciência, e/ou do conhecimento de si mesmo. É um trabalho cooperativo entre terapeuta e paciente).

Portanto, a música permite o contato com áreas do psiquismo praticamente esquecidas pelo exercício da negação de si mesmo. Ajuda a pessoa a fazer um contato mais íntimo com sua “identidade primeira“, antes de ter colocado as máscaras que traduzem os papéis que representa no mundo e que a expõem à solidão, abandono, etc. Poder expressar o seu SER/SENTIR conseguindo passar pelos papéis que representa sem precisar se esconder ou fugir leva o SER a resgatar sua saúde e equilíbrio.

A música também traz efeitos muito significativos no campo da maturação social da criança. É por meio do repertório musical que nos iniciamos como membros de determinado grupo social. Por exemplo: os acalantos ouvidos por um bebê no Brasil não são os mesmos ouvidos por um bebê nascido na Islândia; da mesma forma, as brincadeiras, as adivinhas, as canções, as parlendas que dizem respeito à nossa realidade nos inserem na nossa cultura.

Além disso, a música também é importante do ponto de vista da maturação individual, isto é, do aprendizado das regras sociais por parte da criança. Quando uma criança brinca de roda, por exemplo, ela tem a oportunidade de vivenciar, de forma lúdica, situações de perda, de escolha, de decepção, de dúvida, de afirmação. Fanny Abramovich, em memorável artigo, afirma:

Ò ciranda–cirandinha, vamos todos cirandar, uma volta, meia volta, volta e meia vamos dar, quem não se lembra de quando era pequenino, de ter dados as mãos pra muitas outras crianças, ter formado uma imensa roda e ter brincado, cantado e dançado por horas? Quem pode esquecer a hora do recreio na escola, do chamado da turma da rua ou do prédio, pra cantarolar a Teresinha de Jesus, aquela que de uma queda foi ao chão e que acudiram três cavalheiros, todos eles com chapéu na mão? E a briga pra saber quem seria o pai, o irmão e o terceiro, aquele pra quem a disputada e amada Teresinha daria, afinal, a sua mão? E aquela emoção gostosa, aquele arrepio que dava em todos, quando no centro da roda, a menina cantava: “sozinha eu não fico, nem hei de ficar, porque quero o …(Sérgio? Paulo? Fernando? Alfredo?) para ser meu par”. E aí, apontando o eleito, ele vinha ao meio pra dançar junto com aquela que o havia escolhido… Quanta declaração de amor, quanto ciuminho, quanta inveja, passava na cabeça de todos. (1985, p. 59).

Essas cantigas e muitas outras que nos foram transmitidas oralmente, através de inúmeras gerações, são formas inteligentes que a sabedoria humana inventou para nos prepararmos para a vida adulta. Tratam de temas tão complexos e belos, falam de amor, de disputa, de trabalho, de tristezas e de tudo que a criança enfrentará no futuro, queiram seus pais ou não. São experiências de vida que nem o mais sofisticado brinquedo eletrônico pode proporcionar.

Mais tarde, já às voltas com as dores e as delícias do adolescer, ainda uma vez a música tem papel de destaque. Sem sombra de dúvida, a música é uma das formas de comunicação mais presente na vida dos jovens. Inúmeras vezes, é por meio da canção que temáticas importantes na inserção social desse jovem, não mais como criança, mas agora como preparação para a vida adulta, lhe são apresentadas. Como exemplo, temos os videoclipes que apresentam a jovens de classe média a dura realidade do racismo, da vida nas periferias urbanas e que podem ser utilizados por pais e educadores como forma de estabelecer um diálogo, uma porta para a construção da consciência cívica.

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