Sobre Memphis e Misraïm

                            Rito Egípcio de Memphis e Misraïm – Mitologia

 

ADÃO: “O Primeiro”

Diz a Antiga Tradição que a vida surgiu em Thulé, quando Elfou  (provavelmente a mais antiga palavra para designar “Deus”) moldou uma forma e lhe conferiu o sopro da vida. A essa forma deu o nome de “Adão” (palavra aramaica que quer dizer “o primeiro”), e para consumar a Sua Obra instruiu-o nos “Mistérios da Vida”, que consistiam no conhecimento de “Tudo em Tudo”.

Quando se diz que “a Maçonaria é tão antiga quanto a própria humanidade” está-se a fazer alusão a esta mítica transmissão do “Segredo” ao Primeiro homem. Com efeito, o conhecimento de “Tudo em Tudo” continua a ser o mais antigo mistério da Maçonaria.

Desde sempre, o homem teve necessidade de se agrupar com outros homens da sua mais absoluta confiança, num espírito de solidariedade sem limites, com quem se sentia seguro e apoiado, e onde podia expor os seus conhecimentos e ideias sem receio de ser incompreendido ou mal interpretado. Não é difícil imaginar que grupos desta natureza se reunissem secretamente (para não indignar aqueles que não tivessem sido considerados dignos de os integrar), e que a sua preocupação pouco teria a ver com o simples bem-estar dos seus membros, pois o que provavelmente mais interessava a estes grupos discretos e filantrópicos era lutar pelo bem-estar de toda a comunidade, assegurar os princípios básicos da justiça social e promover o seu desenvolvimento cultural.

Para a sua própria segurança e discrição, os membros destes grupos tiveram necessidade de criar uma linguagem secreta, com recurso a símbolos, só por eles compreendida, a qual podia ser utilizada em praticamente todos os lugares e situações sem comprometer o seu sigilo.

Foi também nestes grupos restritos que, muito mais tarde, se viriam a desenvolver, preservar e transmitir as “Sete Ciências Livres”, também designadas por “Sete Artes”. Estas “Artes” são, em primeiro lugar, a Gramática, a Dialéctica e a Retórica (grupo de saberes designado por “Trivium”), e depois, a Aritmética, a Geometria, a Música e a “Astronomia” (o “Quadrivium”). O conjunto destes dois grupos (as Sete Artes) era designado por “Grande Ciência Sagrada”.

CAIM: “O Filho da Luz”

Recorrendo de novo à Tradição, constatamos um aspecto importante e pouco conhecido: Eva foi mãe de Caim, Abel e Seth (este último nascido em 930 da era antiga, no final da vida de Adão), mas apenas Abel e Seth eram filhos de Adão. Na verdade, Caim não pertence a uma pura genealogia terrena, mas sim a um cruzamento desta com a espiritual, tendo como pai Eblis (designado na Bíblia por Lúcifer).

Enquanto Caim é um “Filho da Luz”, um ser celestial ligado ao Cosmos, à investigação, ao desenvolvimento intelectual, à liberdade, ao domínio da natureza (agricultura, inventos, construção), Abel é um simples filho da matéria, portador de todos os defeitos humanos e dominado por preconceitos e superstições, não passando de um escravo da sua própria ignorância.

O Ser Radioso Eblis (ou Iblis), o pai de Caim, torna-se assim o progenitor de uma extensa dinastia paralela à humana e que se reproduz de forma idêntica. É a dinastia dos Filhos da Luz, que deu origem a Enoch, Hermes, Imhotep (construtor do templo de Edfou e da grande pirâmide de Kéops), Hiram Abif (construtor do Templo de Salomão), e a muitos outros Seres da mais elevada intelectualidade e espiritualidade.

Por se recusar a obedecer a Adão, um simples humano, O Espírito da Luz (Eblis, Lúcifer) foi expulso do paraíso terrestre. Porém, era tanto o seu brilho que só no firmamento encontrou local onde pudesse alojar-se. Por isso, converteu-se na estrela Polar, para irradiar alguma luz e ajudar a dispersar as trevas da humanidade.

Foi imensa a dor de Caim, que também era odiado pela família, a qual queria, a todo o custo, subjugá-lo e transformá-lo num ser acorrentado às limitações humanas. Quem o perseguia mais insistentemente para lograr estes propósitos era o seu irmão Abel, incumbido de tal missão por Adão. Por esta razão Caim foi obrigado a lutar pela liberdade da linhagem espiritual, negando-se a vê-la acorrentada à imperfeição e às fracas limitações humanas. Saiu vencedor desta luta, tendo sucumbido o seu irmão.

Esta passagem refere-se, como é óbvio, à luta que cada ser humano deve travar internamente, consigo próprio, no sentido de se libertar dos erros e vícios que são inerentes à condição humana.

Caim e Abel são designações de diferentes estados da evolução humana, os quais são antagónicos e irreconciliáveis. Representando Caim o BEM, a VIRTUDE e o ALTRUÍSMO, e Abel o MAL, o EGOCENTRISMO e a INVEJA, tudo isto no ser humano, é obrigação de cada um de nós “matar o mal” que em si reside. Por isso, Caim era filho do Espírito da Luz, de genealogia não humana. Fora despertado pelo seu “Pai Celeste”. Era o “novo homem” que despontava. E é também por essa razão que, explorando as antigas escrituras, chegamos ao terceiro filho de Adão – “Seth” –, que corresponde ao culminar da perfeição.

Percebemos assim que todos estes estados devem ocorrer em cada homem: começa por ser Abel (o profano), depois Caim (o iniciado), e mais tarde Seth (o iluminado). É por esta razão que a Maçonaria é “caimita”.

A incapacidade de interpretar o verdadeiro sentido (filosófico) dos textos dos antigos livros sagrados, levou ao estabelecimento de religiões contra-iniciáticas, que têm contribuído para perpetuar a ignorância.

HENOCH: “O Profeta”

Voltando à lenda bíblica…..

Dos descendentes de Caim e de sua esposa (Zila), que foram muitos e seria impossível mencionar todos, vamos agora referir o primeiro filho de Jared: Henoch (que por sua vez foi pai de Matusalém).

Henoch foi o sétimo patriarca de Israel. Nasceu no ano 1422 da era antiga. Segundo a tradição, durante um sonho foi-lhe revelado o verdadeiro nome de Deus, na condição de nunca o poder revelar ou sequer pronunciar, e noutro sonho foi informado acerca do dilúvio e da destruição que o mesmo implicava.

Perante isto, resolveu preservar da catástrofe a revelação do primeiro sonho, e gravou uma representação simbólica sobre um delta de ouro, que incrustou numa pedra cúbica (uma ágata). Esta relíquia foi guardada numa abóbada que escavou no interior de uma montanha.

JABAL, “O Artista” e TUBALCAIM, “O Mestre dos Metais” (ou “Alquimista”)

Continuando na “dinastia” de Caim, vamos destacar dois dos filhos do patriarca Lamec: Jabal e Tubalcaim (Lamec foi também pai de Noé, aos 182 anos).

A Jabal (o filho mais velho) foi revelado o segredo das Sete Artes e a Tubalcaim foram confiados os segredos da Ciência Secreta de forjar e transmutar os metais (a Alquimia).

Para preservar todos estes conhecimentos e impedir que fossem perdidos com o Dilúvio que se avizinhava (e cujos sinais os Sábios sabiam captar), os dois irmãos gravaram-nos sobre duas colunas, uma de pedra e a outra de tijolo.

O dilúvio teve lugar no ano 1657 da era antiga (2378 anos a.C.), quando as chuvas caíram ininterruptamente durante 40 dias e provocaram uma inundação que durou 160 dias.

MISRAÏM, “O Divulgador do Rito”

Misraïm era neto de Noé (filho de Cam).

Mas antes de falarmos de Misraïm torna-se necessário dar uma breve explicação da nossa interpretação de alguns aspectos importantes relativos à transmissão iniciática.

É frequente dizer-se que Adão foi o primeiro Maçom, pelo facto de ter recebido instrução sobre os Mistérios da Vida (o “Tudo em Tudo”).

Para nós, Adão não representa apenas um homem, mas a própria humanidade… de uma Era muito anterior à nossa.

Alguns destes primeiros homens não se resignavam com o que os cinco sentidos físicos lhes permitiam perceber, e desejavam ardentemente saber mais. Devia haver uma explicação para a “Vida”, para o “Universo”, para a “Morte”. Enfim… deram-se conta da sua total e absoluta ignorância acerca de quase tudo o que se relacionava com a sua existência (situação que hoje ainda se mantém).

Servindo-se das faculdades mais importantes do ser humano – a capacidade de pensar e de meditar – foram procurando explicação para muitos dos fenómenos, e alguns destes homens terão atingido estados de “elevada espiritualidade” que lhes proporcionou experiências místicas muito gratificantes.

É durante este processo transformativo, do homem rude para o homem superior, que ocorre o conflito interno “Abel” – “Caim”. È quando o homem superior (Caim) desponta em plenitude, e nele já não há lugar a vícios nem baixezas humanas (designadas por “Abel”). Purifica-se totalmente (mata “Abel”).

É evidente que estas preocupações não atingiam todos os homens, e os que optaram por continuar nas trevas da ignorância achavam que estavam certos (e que os “iniciados nos mistérios” deviam ser dissuadidos das suas pesquisas e voltar a ser como eles).

Isto é referido na lenda bíblica quando refere que a família estava contra ele, por ter “morto Abel”.

Foi por isso que a transmissão dos segredos inerentes ao processo que conduz à “iluminação espiritual” teve que passar a efectuar-se secretamente (para evitar o confronto, inútil e desagradável, com os que preferem viver nas trevas da ignorância e cultivar os vícios e os prazeres insanos).

Vamos agora, finalmente, falar de Misraïm.

Os historiadores maçónicos da tradição “noaquita” afirmam que aquilo que veio a conhecer-se como Maçonaria Egípcia foi transmitido secretamente, pelos iniciados de todas as épocas, de geração em geração, até chegar a Noé. Este, por sua vez, transmitiu os ensinamentos aos seus filhos, e a cadeia iniciática nunca se perdeu. Misraïm levou o conhecimento secreto para o Egipto. Com ele criou o mais antigo Rito Maçónico e estabeleceu-o nas margens do Nilo. Os filhos de Misraïm prosseguiram a cadeia iniciática e instalaram o Rito nas cidades por eles fundadas no Egipto e na Palestina (a Bíblia refere-se à fundação de cidades pelos filhos de Misraïm (Génesis: 10, 13).

Hermes (a que nos referiremos a seguir) descobriu os segredos antes de ser formalmente “iniciado”.

HERMES TRIMEGISTO (Thoth, Mercúrio, Sírio ou Lugh)

Júpiter (ou Zeus), o mais poderoso dos deuses, teve sete esposas, para além de incontáveis amores com ninfas e mortais, de quem foram gerados diversos filhos.

Hermes nasceu dos seus amores com Maya (uma das filhas do Deus Atlas) e Lúcifer dos amores com Aurora.

Por esta razão, Hermes e Lúcifer são irmãos (ou melhor, meio-irmãos).

Hermes foi preceptor de Ísis (que era a filha mais velha do mais antigo dos deuses referidos na antiguidade: Cronos (ou Saturno, o Deus Humano e o Pai do Tempo). Diz-nos Plutarco que Hermes foi o inventor da linguagem secreta, foi o primeiro legislador, e foi quem ensinou à humanidade o culto dos deuses e o modo de construir os templos para a sua adoração.

Após o abaixamento das águas diluvianas, coube a Hermes a descoberta das duas colunas onde Jabal e Tubalcaim registaram o conhecimento das Ciências e das Artes Secretas.

Compreendendo a importância de tais conhecimentos, Hermes toma a iniciativa de os transmitir a um reduzido número de homens que ele considera suficientemente preparados, não apenas para os manter em segredo, mas para lhes dar utilidade, de forma discreta (e por sua vez transmiti-los a outros, que se encontrassem preparados para os receber).

Após a avaliação dos escolhidos para transmissão do conhecimento “hermético” (palavra que deriva do seu nome, e que entrou no léxico comum com o significado de “vedado”, “selado”, “bem fechado”, mas que em sentido iniciático quer dizer “secreto” ou “desconhecido dos profanos”), Hermes dá os primeiros passos nas revelações secretas, processo que culmina na ordenação dos seus discípulos como Sacerdotes do “Deus Vivo”. Estes homens tornam-se os detentores de todos os segredos das Ciências, das Artes, e dos Mistérios dos Símbolos. Alguns destes sábios vieram a tornar-se os mais altos dignitários do Estado egípcio e ocuparam cargos de relevo na administração do país.

Com o famoso aforismo “O que está em cima é como o que está em baixo”, Hermes revela a Lei da Analogia que permite compreender o macrocosmos a partir das observações do microcosmos e encerra a síntese de todo o saber hermético.

Ele referia-se também a uma força misteriosa, que designava por «forte força da força», a qual se encontra em todos os homens, mas que poucos se preocupam em despertar. Representou simbolicamente essa força no «caduceo», onde duas serpentes se entrelaçam num bastão.

Diz a tradição que foi o próprio Deus (seu pai) quem iniciou Hermes no conhecimento das ciências e das artes e o designou por “Trimegisto” ou “Três Vezes Grande” (Grande em qualidades humanas, Grande Sábio e Grande Mestre), inspirando-o a receber as mais altas iniciações em todos os templos de sabedoria do mundo (Índia, Tibete, Pérsia, Etiópia e Egipto), onde se tornaria conhecedor de todas as doutrinas e cerimónia sagradas. O propósito era torná-lo instrutor da humanidade e habilitá-la a deixar registos escritos dos seus saberes, pensamentos e emoções.

De acordo com a mesma tradição, Hermes terá sido o autor dos hieróglifos, que permitiram aos egípcios registar a sua cultura e a sua teologia.

Hermes (Thoth) é citado no Livro dos Mortos como “o que pesa as almas”: «…A tua alma foi pesada e foi encontrada falta de peso…».

Hermes foi também instrutor dos Gregos e venerado pelos Celtas.

Para os antigos egípcios Thoth foi classificado como o Deus da Sabedoria e da escrita, o guardião dos arquivos sagrados e da magia (que integrava a própria religião); para os gregos, Hermes foi o mais excelso de todos os Sábios. Também integrou o panteão celta, como “Lugh”, o Ser Superior e Mestre de todos os saberes, protector das almas dos mortos que passavam a barreira do desconhecido, e dos vivos que o evocavam pedindo a Sabedoria Ancestral.

A corrente iniciática tradicional da Maçonaria não é outra coisa que o «Hermetismo», porque em toda a sua história se tem ocupado da filosofia tradicional e da síntese de todos os conhecimentos, desde as épocas mais recuadas, reconhecendo no homem a síntese microcósmica de todas as cosas, como parte de um «Todo» Macrocósmico, e que está latente nele a capacidade para compreender as Verdades Superiores.

O estudo das primeiras civilizações da humanidade permite compreender a existência de uma espécie de hierarquia oculta. Diz a tradição que esta hierarquia é constituída por Reis Sacerdotes, iniciados nos mistérios, a qual forma uma fraternidade teocrática de Sábios. Esta fraternidade mereceu a designação genérica de «Grande Loja Branca», e a sua chefia esteve a cargo de Melquisedek (Melchisedech ou Melquizedech), “Rei Sacerdote”, “Rei de Salem”, “Mestre do «Deus Altíssimo”. (Estas coisas devem ser interpretadas e compreendidas…)

Ao longo dos séculos, a Grande Loja Branca (ou Grande Fraternidade Branca) tem sido a fiel guardiã de todos os segredos e mistérios do Universo e a transmissora da Doutrina Sagrada. Os “Magos” Melchior, Gaspar e Baltasar, citados na tradição Cristã, eram “Reis Sacerdotes” desta fraternidade.

O TRADICIONAL USO DOS SÍMBOLOS NA MAÇONARIA

Os obreiros especializados nas grandes obras de arquitectura encontravam-se espalhados por todos os povos e culturas, falando diferentes línguas.

Phalec (nome dado também ao anjo Camael), um famoso arquitecto da antiguidade (relacionado com a construção da torre Etemenanki, ou “Babel”, que em assírio que dizer “confusão”), vendo-se impossibilitado de comunicar com os mestres e obreiros com as palavras da sua língua natal, estabeleceu códigos através de símbolos e sinais.

Esta tradição de comunicar por símbolos é uma das mais antigas características da maçonaria egípcia, e terá sido justamente Misraïm quem a levou para o Egipto, tendo sido grande valia para a construção das pirâmides.

Misraïm foi o fundador da primeira dinastia egípcia, a que se refere a tradição quando fala do mitológico “rei escorpião”.

Vinte e cinco séculos antes da era Cristã, no reinado de Kéops, o uso dos símbolos e sinais, associado ao conhecimento astronómico, cosmológico e geométrico, permitiu revelar na grande pirâmide um manancial de impressionantes conhecimentos (nas medidas arquitectónicas, na estrutura, no aproveitamento dos espaços interiores, e na própria decoração).

Todos os construtores egípcios integravam sociedades secretas iniciáticas, destacando-se uma delas, fixada em Deir el Medineh, onde era praticada a antiga Maçonaria. Estas sociedades funcionavam não apenas com finalidade iniciática-ritualística, mas também como agremiações do tipo “sindical”, sendo ali estudadas as reivindicações a apresentar pelos obreiros e também todas as leis e códigos de actuação que lhes serviriam de guia.

No museu do Cairo existe documentação comprovativa destes factos, respeitante ao ano 29 do reinado de Ramsés II, na 19ª dinastia.

Todas as obras eram consagradas ao “Soberano Arquitecto dos Mundos”.

Para a Maçonaria Egípcia, a data da construção da grande pirâmide marca o primeiro ano do calendário Maçónico. E esta data corresponde ao ano4000 a.C..

 

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