Papel do médium nas comunicações

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No momento em que exerce a sua faculdade o médium, às vezes, se acha num estado de crise mais ou menos definido. É isso que o fadiga e é por isso que necessita de repouso. Mas, na maioria das vezes, seu estado não difere muito do normal, sobretudo nos médiuns escreventes.

As comunicações escritas ou verbais podem ser também do próprio Espírito do médium, pois a alma do médium pode comunicar-se como qualquer outra. Se ela goza de um certo grau de liberdade, recobra então as suas qualidades de Espírito. A prova disso pode ser observada na visita das almas de pessoas vivas que se comunicam, muitas vezes sem serem chamadas, isso acontece. porque entre os Espíritos evocados há os que estão encarnados na Terra (1). Nesses casos eles falam como Espíritos e não como homens. Assim, o médium pode fazer o mesmo. (2)

Esta explicação pode parecer confirmar a opinião dos que acreditam que todas as comunicações são do Espírito do médium e não de outro Espírito, só que eles estão enganados por entenderem que tudo é assim: porque é certo que o Espírito do médium pode agir por si, mas isso não é razão para que outros Espíritos não pudessem agir também por seu intermédio (3).

Pode-se distinguir se o Espírito que responde é o médium ou se é outro Espírito pela natureza das comunicações. Estudando-se as circunstâncias e a linguagem a distinção poderá ser observada. É sobretudo no estado sonambúlico ou de êxtase que o Espírito do médium se manifesta, pois então ele se acha mais livre. No estado normal é mais difícil. Há respostas, aliás, que não lhe podem ser atribuídas. Por isso é necessário observar e estudar atentamente, pois, quando uma pessoa nos fala, facilmente distinguimos o que é dela e o de que ela apenas se faz eco. Acontece o mesmo com os médiuns.

Desde que o Espírito do médium pode adquirir, em existências anteriores, conhecimentos que esqueceu no seu corpo atual, mas dos quais se lembra como Espírito, ele pode tirar do fundo de si mesmo as ideias que parecem ultrapassar o alcance de sua instrução, isso acontece muitas vezes nos casos de crise sonambúlica ou extática, mas ainda assim existem circunstâncias que não permitem a dúvida, por isso, ainda mais uma vez sugerimos um estudo atento sobre estes casos.

As comunicações do Espírito do médium nem sempre são inferiores às que pudessem ser dadas por outros Espíritos, pois o Espírito comunicante pode ser de uma ordem inferior à do médium e nesse caso falará com menos sensatez. Vê-se isso no sonambulismo, pois sendo o Espírito do sonâmbulo o que frequentemente se manifesta, no entanto diz algumas vezes coisas muito boas.

O Espírito comunicante transmite tendo o Espírito do médium como intérprete, isto é, porque o Espírito do médium está ligado ao corpo que serve para a comunicação e porque é necessária essa cadeia entre o médium e o Espírito comunicante, como é necessário um fio elétrico para transmitir uma notícia à distância, e na ponta do fio uma pessoa inteligente que a receba e comunique (4).

O Espírito do médium pode influir nas comunicações de outros Espíritos em que ele deve transmitir, pois se não há afinidade entre eles, o Espírito do médium pode alterar as respostas, adaptando-as às suas próprias ideias e às suas tendências. Mas não exerce influência sobre o Espírito comunicante. É apenas um mau intérprete.

É essa a causa da preferência dos Espíritos por certos médiuns, procuram o intérprete que melhor simpatize com eles e transmita com maior exatidão o seu pensamento. Se não houver simpatia entre eles, o Espírito do médium será um antagonista que lhe oferecerá resistência, tornando-se um intérprete de má vontade e quase sempre infiel. Acontece o mesmo, quando as ideias de um sábio são transmitidas por um insensato ou uma pessoa de má fé.

Mesmo quando se trata de médiuns mecânicos é preciso compreender bem a função do médium. Há uma lei que deve ser bem observada, é a de que, para produzir o movimento de um corpo inerte o Espírito necessita do fluido animalizado do médium, de que se serve, por exemplo, para animar momentaneamente a mesa, fazendo a obedecer à sua vontade. Pois bem, para uma comunicação inteligente ele necessita também de um intermediário inteligente, e esse intermediário é o Espírito do médium, ou seja, da mesma maneira que às mesas falantes, pranchetas e as cestas, em que, o Espírito pode dar uma vida factícia momentânea a um corpo inerte, mas não à inteligência. Assim, se um corpo inerte jamais teve inteligência, é pois, o Espírito do médium que recebe o pensamento sem o perceber e o transmite pouco a pouco, com a ajuda de diversos intermediários (5).

Dessas explicações resulta que o Espírito do médium é passivo desde que não mistura suas próprias ideias com as do Espírito comunicante, mas nunca se anula por completo. Seu concurso é indispensável como intermediário, mesmo quando se trata dos chamados médiuns mecânicos (6).

Sem dúvida, há maior garantia de independência no médium mecânico do que no médium intuitivo e para algumas comunicações é preferível o médium mecânico. Mas, quando conhecemos as faculdades de um médium intuitivo, isso se torna indiferente, segundo as circunstâncias, ou seja, certas comunicações exigem menos precisão.

Entre os diferentes sistemas propostos para explicar os fenômenos espíritas há um que pretende estar a verdadeira mediunidade nos corpos inertes, por exemplo, na cesta ou na caixa de papelão que servem de instrumento, assim, o Espírito comunicante se identificaria com o objeto e o tornaria não somente vivo, mas também inteligente, do que resultou a designação de médiuns inertes para os objetos. Quanto a isso, só se tem a dizer o seguinte: se o Espírito transmitisse inteligência à caixa e lhe desse vida, ela escreveria sozinha, sem o concurso do médium. Seria estranho que o homem inteligente virasse máquina e um objeto inerte se tornasse inteligente. É um dos numerosos sistemas surgidos de ideias preconcebidas e que vão caindo diante da experiência e da observação.

Um fenômeno bem conhecido é o das mesas girantes, cestas, etc., em que esses corpos inertes assim animados, parecem ter vida e até mesmo inteligência e do qual, também, parecem exprimirem, nos seus movimentos, a cólera ou a afeição. Pode-se explicar isso apagando essa impressão, assim: Quando um homem colérico sacode uma bengala não é esta que se acha encolerizada, nem mesmo a mão que a segura, mas o pensamento que dirige a mão. As mesas e as cestas não são mais inteligentes do que a bengala. Não têm nenhum sentimento inteligente, mas obedecem a uma inteligência. Numa palavra: não é o Espírito que se transforma em cesta, nem mesmo escolhe a cesta para nela se abrigar.

Designando esses objetos como uma variedade de médiuns inertes, é simplesmente uma questão de palavras que pouco importa, desde que haja um entendimento racional. (7) Contudo, por sensatez, achamos por bem, persistir em considerar as pessoas como os verdadeiros médiuns, que podem ser ativos ou passivos, segundo a sua natureza e a sua aptidão; chamamos, querendo-se, os instrumentos de médiuns inertes, é uma distinção talvez útil, mas se estaria em erro atribuindo-lhe o papel e as propriedades de seres animados nas comunicações inteligentes; dizemos inteligentes, porque é necessário ainda fazer a distinção de certas manifestações espontâneas puramente físicas. (8)

Os Espíritos só têm uma linguagem, a do pensamento (9), assim, o Espírito do médium e todos podem compreender essa língua, tanto os homens como os Espíritos. Ao dirigir-se ao Espírito encarnado do médium, o Espírito comunicante não fala em francês nem em inglês, mas na língua universal do pensamento. Para traduzir suas ideias numa linguagem articulada, transmissível, ele utiliza ai palavras do vocabulário do médium.

Pode-se ter a ideia de que o Espírito só deveria exprimir-se na língua médium, mas sabe-se que existem médiuns que escrevem em línguas que lhe são desconhecidas.  Isso pode parecer uma contradição, mas se observarmos atentamente, primeiro nem todos os médiuns são igualmente aptos a esse gênero de exercício. Em seguida, que os Espíritos só se prestam a ele acidentalmente, quando julgam que isso pode ser útil. Para as comunicações usuais, de certa extensão, preferem servir-se de uma língua familiar ao médium, que lhes apresenta menos dificuldades materiais a superar.

A aptidão de certos médiuns para escreverem numa língua estranha provém do fato de a terem usado noutra existência conservando-a na atual em forma intuitiva, isso acontece, mas não é uma regra. O Espírito pode, com algum esforço, superar momentaneamente a resistência material. É o que se verifica quando o médium escreve, na sua própria língua, palavras que não conhece (10).

Uma pessoa que não sabe escrever, poderia fazê-lo como médium, mas compreende-se que haverá grande dificuldade mecânica a vencer, pois a mão não está habituada aos movimentos necessários para formar as letras. Acontece o mesmo com os médiuns desenhistas que não sabem desenhar.

Um médium de inteligência bem reduzida pode transmitir comunicações de ordem elevada, pela mesma razão que um médium pode escrever numa língua que não conhece. A mediunidade propriamente dita independe da inteligência, como das qualidades morais. Na falta de melhor instrumento o Espírito pode servir-se do que tem à mão.  Mas é natural que, para as comunicações de certa ordem, prefira o médium que lhe oferece menos obstáculos materiais. E há ainda outra consideração: o idiota frequentemente só é idiota pela imperfeição dos seus órgãos, pois o seu Espírito pode ser mais adiantado do que se pensa.  A prova disso pode ser observada em algumas evocações de idiotas mortos ou vivos (11). Este é um fato comprovado pela experiência. Numerosas vezes foram evocados Espíritos de idiotas vivos, que deram provas patentes de sua identidade, respondendo perguntas de maneira muito sensata e até mesmo superior. Esse estado é uma punição para o Espírito, que sofre com o constrangimento em que se encontra. Um médium idiota pode oferecer, pois, algumas vezes, ao Espírito que deseja manifestar-se, maiores recursos do que se pensa. (12)

A aptidão de certos médiuns para escreverem versos, apesar de sua ignorância em matéria de poesia se explica assim: A poesia é uma linguagem. Eles podem escrever em versos, como podem fazê-lo numa língua que desconhecem. Além disso, podem ter sido poetas em outra existência, pois, os conhecimentos adquiridos nunca se perdem para o Espírito, que deve atingir a perfeição em todas as coisas. Assim, o que eles souberam no passado lhes dá, sem que o percebam, uma facilidade que não possuem no estado habitual. É o mesmo caso dos que têm aptidão especial para o desenho e a música. O desenho e a música são também formas de expressão do pensamento. Os Espíritos se servem dos instrumentos que lhes oferecem mais facilidades.

A expressão do pensamento pela poesia, o desenho ou a música depende, algumas vezes, do médium, outras do Espírito. Os Espíritos superiores possuem todas as aptidões, os Espíritos inferiores têm conhecimentos limitados.

Não é sempre que um homem dotado de grande talento numa existência não o possua na seguinte, pois na maioria das vezes ele aperfeiçoa numa existência o que começou na anterior. Mas pode acontecer que uma faculdade superior adormeça durante certo tempo para facilitar o desenvolvimento de outra. Será um germe latente que mais tarde germinará de novo, mas do qual sempre haverá alguns sinais ou pelo menos uma vaga intuição.

NOTAS

(1) Ver Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, 2ª. Parte, cap. XXV, Das Evocações, item 284 ).

(2) Ver as evocações de Espíritos de vivos na Revista Espírita, feitas por Kardec para pesquisas. Mas o Espírito aqui se refere a evocações de Espíritos já reencarnados, sem que Kardec o soubesse. (Nota de J. Herculano Pires)

(3) Esse erro de exclusivismo é o mesmo que hoje praticam os parapsicólogos antiespíritas, que pensam haver descoberto a pólvora ao afirmar: “Não há Espíritos, pois tudo vem da mente do médium!” O Espiritismo, como se vê, conhece desde o seu início os dois fenômenos: o anímico, de manifestação da alma do médium, e o espírita, de manifestação de um Espírito desencarnado. Jamais o Espiritismo cometeu o erro do exclusivismo oposto, ou seja, de afirmar que as comunicações são apenas de Espíritos desencarnados. Veja-se a Revista Espírita, o livro de Aksakoff Animismo e Espiritismo e os livros de Ernesto Bozzano Animismo ou Espiritismo e Comunicações Mediúnicas Entre Vivos. (Nota de J. Herculano Pires)

(4) O papel do médium nas comunicações é sempre ativo. Seja o médium consciente ou inconsciente, intuitivo ou mecânico, dele sempre depende a transmissão e sua pureza. Essa condição explicaria muitas dificuldades que os observadores apressados atribuem a intuitos de mistificação, caso tivessem a prudência cientifica necessária para um análise mais profunda do problema mediúnico. A mediunidade, como se vê, é mais complexa e sutil do que o supõem os críticos e negadores sistemáticos. (Nota de J. Herculano Pires)

(5) A expressão francesa a son insu tem sido traduzida nesta passagem por a seu mau grado, o que não está certo. O Espírito do médium recebe o pensamento e o transmite pelos diversos intermediários ou instrumentos (mesa, cesta etc.) sem perceber exatamente o que faz sob o impulso do comunicante, mas não contra a vontade. (Nota de J. Herculano Pires)

(6) A passividade do médium é assim uma concordância, determinada pela sua própria vontade. Ele nunca se anula, mas serve de boa vontade ao Espírito comunicante. (Nota de J. Herculano Pires)

(7) A insistência de Kardec nessas perguntas era motivada pela campanha que um inovador desenvolvia em Paris, acusando-o de não conhecer a existência dos médiuns inertes, que ele recusava. Ver o episódio na Revista Espírita. (Nota de J. Herculano Pires)

(8) (Ver Allan Kardec, Revista Espírita de outubro de 1859, artigo sobre Os Médiuns Inertes.)

(9) O pensamento é um atributo da alma, assim, para os Espíritos o pensamento é tudo. O fluido universal estabelece entre eles uma comunicação constante e é o veículo de transmissão do pensamento, como o ar é para nós o veículo do som. Uma espécie de telégrafo universal que liga todos os mundos, permitindo aos Espíritos corresponderem-se em todos os pontos do Universo.(Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, livro segundo, itens 89ª, 100 e 282.).

(10) O caso Chico Xavier é a mais eloquente demonstração atual desse princípio. O médium tem recebido livros inteiros em linguagem técnica sobre Medicina, Sociologia, História e outros assuntos, sem nenhum conhecimento pessoal dessas matérias.  Veja-se, como exemplos, Emmanuel e Evolução Em Dois Mundos. (Nota de J. Herculano Pires)

(11) As pesquisas parapsicológicas vêm confirmando plenamente essa tese espírita sobre os idiotas, como se constata nas experiências com débeis mentais, tão bem dotados, como os sensitivos normais, das chamadas funções psi. Vejam-se os estudos de Jean Ehenwaid, Eisenbud, Urban, Humphrey, Schmeidier e outros a respeito. (Nota de J. Herculano Pires)

(12) (Ver Allan Kardec, Revista Espírita de julho de 1860, artigo sobre Frenologia e Fisiognomonia.)

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