A Vidência

videncia

Allan Kardec recomenda provas positivas aos médiuns videntes.

Segundo Allan Kardec, os médiuns videntes são dotados da faculdade de ver os Espíritos. Há os que gozam dessa faculdade em estado normal, perfeitamente acordados, guardando lembrança precisa do que viram. Outros só a possuem em estado sonambúlico ou aproximado ao sonambulismo. Incluem-se na categoria de médiuns videntes todas as pessoas dotadas de dupla vista. A possibilidade de ver os Espíritos em sonho é também uma espécie de mediunidade, mas não constitui propriamente a mediunidade de vidência.

O médium vidente acredita ver pelos olhos, como os que têm dupla vista, mas na realidade é a alma que vê, e por essa razão eles tanto vêem com os olhos abertos ou fechados.

Devemos distinguir as aparições acidentais e espontâneas da faculdade propriamente dita de ver Espíritos. As primeiras ocorrem com mais freqüência no momento da morte de pessoas amadas ou conhecidas que vêm advertir-nos de sua passagem para o outro mundo. Há numerosos exemplos de casos dessa espécie, sem falar das ocorrências de visões durante o sono. De outras vezes são parentes ou amigos que, embora mortos há muito tempo, aparecem para nos avisar de um perigo, dar um conselho ou pedir ajuda – é sempre a execução de um serviço que ele não pôde fazer em vida ou o socorro das preces.

Essas aparições constituem fatos isolados, tendo um caráter individual e pessoal. Não constituem, pois, uma faculdade propriamente dita. A faculdade consiste na possibilidade, senão permanente, pelo menos freqüente, de ver os Espíritos que se aproximam, mesmo que estranhos. É esta faculdade que define o médium vidente.

Entre os médiuns videntes há os que vêem somente os Espíritos evocados, podendo descrevê-los com minuciosa exatidão. Conseguem descrevê-los nos menores detalhes dos seus gestos, da expressão fisionômica, os traços característicos do rosto, as roupas e até mesmo os sentimentos que revelam. Há outros que possuem a faculdade em sentido mais geral, vendo toda a população espírita do ambiente ir e, poder-se-ia dizer, entregue a seus afazeres.

Kardec, ainda em “O LIVRO DOS MÉDIUNS”, relata o seguinte e singular episódio:

Assistimos, certa noite, à representação da ópera Óberon ao lado de um excelente médium vidente. Havia no salão grande número de lugares vazios, mas muitos estavam ocupados por Espíritos que pareciam escutar as suas conversas. No palco se passava outra cena; por trás dos atores muitos Espíritos joviais se divertiam em contracená-los, imitando-lhes os gestos de maneira grotesca. Outros, mais sérios, pareciam inspirar os cantores, esforçando-se por lhes dar mais energia. Um desses mantinha-se junto a uma das principais cantoras. Julgamos as suas intenções um tanto levianas e o evocamos após o baixar das cortinas. Atendeu-nos e reprovou o nosso julgamento temerário. – Não sou o que pensas – disse -sou o seu guia protetor; cabe-me dirigi-la. Após alguns minutos de conversação bastante séria, deixou-nos dizendo: -Adeus. Ela está no seu camarim e preciso velar por ela;

Evocamos depois o Espírito de Weber, autor da peça, e lhe perguntamos o que achava da representação. – Não foi muito má – respondeu -, mas fraca. Os atores cantam, eis tudo. Faltou inspiração. Espera – acrescentou – vou tentar insuflar-lhes um pouco do fogo sagrado! Vimo-lo, então, sobre o palco, palrando acima dos atores. Um eflúvio parecia se derramar dele para os intérpretes, espalhando-se sobre eles. Nesse momento verificou-se entre eles uma visível recrudescência da energia.

Kardec conta, em seguida, outro caso:

Assistíamos a uma representação teatral com outro médium vidente. Conversando com um Espírito espectador, disse-nos ele: – Estás vendo aquelas duas senhoras sozinhas num camarote de primeira? Pois bem, vou me esforçar para tirá-las do salão. Dito isso, dirigiu-se ao camarote das senhoras e começou a falar-lhes. Súbito as duas, que estavam muito atentas ao espetáculo, se entreolharam, parecendo consultar-se, e a seguir se foram, não voltando mais. O Espírito nos fez, então, um gesto gaiato, significando que cumprira a palavra. Mas não o pudemos rever para pedir-lhe maiores explicações.

Muitas vezes somos assim testemunhas (visuais) do papel que os Espíritos exercem entre os vivos. Observamo-los em diversos lugares de reunião: em bailes, concertos, sermões, funerais, núpcias etc., e em toda parte os encontramos atiçando as más paixões, insuflando a discórdia, excitando as rixas, motivando os apetites sexuais e rejubilando-se com suas proezas. Outros, pelo contrário, combatem essa influência perniciosa, mas só raramente são ouvidos… A faculdade de ver os Espíritos é uma dessas faculdades cujo desenvolvimento deve processar-se naturalmente, sem que se provoque.

Os médiuns videntes, finaliza Kardec, são raros e deve-se ter muitas razões para submetê-los ao crivo da observação. E prudente não lhes dar fé senão mediante provas positivas. Não nos referimos – sentencia Kardec – aos que alimentam a ridícula ilusão dos Espíritos-glóbulos.

  1. A vidência propriamente dita independe dos olhos material, porque é uma visão anímica, a alma vê fora do corpo. É o que a Parapsicologia chama de percepção extrasensorial’. A dupla vista se manifesta sempre como um desdobramento da visão norma.
  2. O exame de alguns efeitos óticos deram origem ao estranho sistema dos Espíritos-glóbulos. Esses efeitos óticos são considerados, por algumas pessoas, Espíritos. Afirmam que eles as acompanham: vão para a direita e para a esquerda, para cima e para baixo, conforme elas movem a cabeça.

Por Carlos Bernardo Oliveira, Salvador, BA – Publicado na Revista Internacional de Espiritismo – O Clarim – Junho 1998

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