Abikú (nascer-morrer)

O que é Abikú (nascer-morrer)

…“ABIKÚ Uma criança que morre logo após o parto para atormentar os pais, nascendo e renascendo indeterminadamente.”…

Como entender este fenômeno, que muitos têm medo e ao mesmo tempo curiosidade, mas que para os Yorubás tem explicação e aceitação natural?

Vejamos então, um pouco sobre este fenômeno Abikú.      

Abikú Na Religião Yorubá acredita-se que: são crianças que terão passagem curta pela terra, ou seja, não viverão por muitos anos.

Nas religiões afro-brasileiras existe ainda uma explicação que diz: os Abikú se constituem numa sociedade de espíritos, onde a regra é vir à Terra (encarnar), mas viver apenas por um curto período. Sabe-se que antes de encarnar o espírito se compromete com a comunidade dos Abikú, à qual pertence, de voltar o mais rápido possível, estabelecendo inclusive, data e hora. Existem ebós para quebrar esse pacto do espírito com a sociedade dos Abicun, permitindo assim, que o espírito viva por mais tempo na terra. Na terra dos yorubás, acredita-se que quando nasce um Abikú significa que a família tem dívidas espirituais a pagar; por isso o nascimento de uma criança que necessitará de muitos cuidados espirituais para evitar sua morte prematura — o que sempre é um sofrimento para os pais. Assim como o nascimento de gêmeos, Ibeji é uma grande honra e uma grande alegria para a família, o nascimento de um Abiku é sinal de problemas e de preocupações. Esses espíritos pertencem ao egbé Abiku e não a um egbé da terra. Por isso sua forte ligação com o orun e sua necessidade de sempre tentar voltar ao seu egbé, o que pode causar a morte prematura da criança entre o primeiro e o sétimo ano de vida.

Se uma mulher, em país yorubá dá à luz uma série de crianças natimortas ou mortas em baixa idade, a tradição reza que não se trata da vinda ao mundo de várias crianças diferentes, mas de diversas aparições do mesmo ser (para eles, maléfico) chamado abikú (nascer-morrer) que se julga vir ao mundo por um breve momento para voltar ao país dos mortos, Órun (o céu), várias vezes.

Ele passa assim seu tempo a ir e voltar do céu para o mundo sem jamais permanecer aqui por muito tempo, para grande desespero de seus pais, desejos de ter os filhos vivos.

Essa crença se encontra entre os Akan, onde a mãe é chamada awomawu (ela bota os filhos no mundo para a morte). Os Ibo chamam os abiku de ogbanje, os hauças de danwabi e os fanti, kossamah.

Encontramos informações a respeito dos abikú em oito itens (histórias) de Ifá, sistema de adivinhação dos yorubá, classificados nos 256 Odus (sinais de Ifá). Essas histórias mostram que os abeco formam sociedades no Egbá Órun (céu), presididas por Iyàjansà (a mãe se bate e corre) para os meninos e olókó (chefe da reunião) para as meninas, mas é Aláwaiyé (Rei de Awaiyé) que as levou ao mundo pela 1ª vez na sua cidade de Awayié. Lá se encontra a floresta sagrada dos abikú, aonde os pais de abikú vão fazer oferendas para que eles fiquem no mundo.

Quando vem do céu para a terra, os abikú passam os limites do céu diante do guardião da porta, Oníbodé Órun, seus companheiros vão com ele até o local onde eles se dizem até logo. Os que partem declaram o tempo que vão ficar no mundo e o que farão. Prometem a seus companheiros que não ficarão ausentes, essas, crianças apesar de todo os esforços de seus pais, retornarão, para encontrar seus amigos no céu.

Os abikú podem ficar no mundo por períodos mais ou menos longos. Um abikú menina chamada “A morte os puniu” declara diante de Oníbodé Órun que nada do que os seus pais façam será capaz de retê-la no mundo, nem presentes nem dinheiro, nem roupas que lhes ofereçam, nem todas as cosias que eles gostariam de fazer por ela atrairiam os seus olhares nem lhe agradariam.

Um abikú menino, chamado Ilere, diz que recusará todo alimento e todas as coisas que lhe queiram dar no mundo. Ele aceitará tudo isto no céu.

Quando Aláwaiyé levou duzentos e oitenta abikú ao mundo pela primeira vez, cada um deles tinha declarado, ao passar a barreira do céu, o tempo que iria ficar no mundo. Um deles se propunha a voltar ao céu assim que tivesse visto sua mãe; outro iria esperar até o dia em que seus pais decidissem que ele casasse; outro, que retornaria ao céu, quando seus pais concebessem um novo filho, um ainda não esperaria mais do que o dia em que começasse a andar.

Outros prometem à Iyàjanjasà, que está chefiando a sua sociedade no céu, respectivamente, ficar no mundo sete dias, ou até o momento em que começasse a andar ou quando ele começasse a se arrastar pelo chão, ou quando começasse a ter dentes ou ficar em pé.

Nossas histórias de Ifá nos dizem que oferendas feitas com conhecimento de causa são capazes de reter no mundo esses abikú e de lhes fazer esquecer suas promessas de volta, rompendo assim o ciclo de suas idas e vindas constantes entre o céu e a terra, porque, uma vez que o tempo marcado para a volta já tenha passado, seus companheiros se arriscam a perder o poder sobre eles.

É assim que nessas quatro histórias encontramos oferendas que comportam um tronco de bananeira acompanhado de diversas outras coisas. Um só dos casos narrados, o terceiro, explica a razão dessas oferendas:

 

“Um caçador que estava à espreita, no cruzamento dos caminhos dos abikús, escutou quais eram as promessas feitas por três abikú quanto à época do seu retorno ao céu.”

Um deles promete que deixará o mundo assim, que o fogo utilizado por sua mãe, para preparar sua papa de legumes, se apague por falta de combustível. O segundo esperará que o pano que sua mãe utilizar, para carregá-lo nas costas se rasgue. A terceira esperará, para morrer, o dia em que seus pais lhe digam que é tempo de ele se casar e ir morar com seu esposo.

 O caçador vai visitar as três mães no momento em que elas estão dando à luz a seus filhos abikú e aconselha a primeira que não deixe se queimar inteiramente a lenha sob o pote que cozinha os legumes que ela prepara para seu filho; a segunda que não deixe se rasgar o pano que ela usar para carregar seu filho nas costas, que utilize um pano de qualidade diferente; ele recomenda, enfim à terceira, de não especificar, quando chegar a hora, qual será o dia em que sua filha deverá ir para a casa do seu marido.

  As três mães vão, então consultar a sorte, Ifá, que lhes recomenda que façam respectivamente as oferendas de um tronco de bananeira, de uma cabra e de um galo, impedindo, por meio deste subterfúgio, que os três abikús possam manter seu compromisso. Porque, se a primeira colocar um tronco de bananeira no fogo, destinado a cozinhar a papa do seu filho, antes que ele se apague, o tronco de bananeira, cheio de seiva e esponjoso não pode queimar e o abikú, vendo que a lenha não é consumida pelo fogo, diz que o momento da sua partida ainda não é chegado.

A pele de cabra oferecida pela segunda mãe serve para reforçar o pano que ela usa para levar seu filho nas costas; a criança abikú não vai achar nunca que esse pano se rasgou e não vai poder manter sua promessa. Não se sabe bem o porque do oferecimento de um galo, mas a história conta que quando chegou a hora de dizer à filha que é já uma moça, que ela deveria ir para casa do seu marido, os pais não lhe disseram nada e a enviaram bruscamente para a casa dele. 

Nossos três abikú não podem mais manter a promessa que fizeram, porque as circunstâncias que devem anunciar sua partida, não se realizaram tais como eles tinham previsto na sua declaração diante de Oníbodé Órun. “Estes três abikú não vão mais morrer, eles seguiram outro caminho.”

Comentamos esta história com alguns detalhes porque ilustra bem o mecanismo das oferendas e de sua função. Não é a lenda que nos interessa aqui, mas a tentativa de demonstração de que em país yorubá, a sorte (destino) pode ser modificada, numa certa medida, quando certos segredos são conhecidos.

Em país yorubá, os pais, para proteger seus filhos abikú e tentar retê-los no mundo, podem se dedicar a certas práticas, tais como fazer pequenas incisões nas juntas da criança e aí esfregar atin (um pó preto feito com ossum, favas e folhas litúrgicas para esse fim) ou ainda ligar à cintura da criança um ondè, talismã feito desse mesmo pó negro, contido num saquinho de couro.

A ação protetora buscada nas folhas, expressa nas fórmulas de encantamento, é introduzida no corpo da criança por pequenas incisões e fricções, e a parte do pó preto, contida no saquinho do ondé, representa uma mensagem não verbal, uma espécie de apoio material e permanente da mensagem dirigida pelos elementos protetores contra os elementos hostis, sendo essa forma de expressão menos efêmera do que a palavra.

Em outra história, são feitas alusões aos xaorôs, anéis providos de guizos, usados nos tornozelos pelas crianças abikú, para afastar os companheiros que tentam vir buscá-los no mundo e lembrar-lhes suas promessas. De fato seus companheiros não aceitam assim tão facilmente a falta de palavra dos abikú, retidos no mundo pelas oferendas, encantamentos e talismãs preparados pelos pais, de acordo com o conselho dos babalaôs. Nem sempre essas precauções e oferendas são suficientes para reter as crianças abikú sobre a terra. Iyájanjàsa é muitas vezes mais forte. Ela não deixa agir o que as pessoas fazem para retê-los e porá tudo a perder o que as pessoas tiverem preparado. Contra os abikú não há remédios. Yiájanjàsá os atrairá à força para o céu. Os corpos dos abikú que morrem assim são frequentemente mutilados. A fim de que, dizem, eles percam seus atrativos e seus companheiros no céu não queiram brincar com eles, sobretudo para que o espírito do abikú, maltratado deste modo, não deseje mais vir ao mundo.

Essas crianças abikú recebem no seu nascimento, nomes particulares. Alguns desses nomes são acompanhados de saudações tradicionais. Eles podem ser classificados: quer nomes que estabeleçam sua condição de abikú; quer nomes que lhes aconselham ou lhe suplicam que permaneçam no mundo; quer em indicações de que as condições para que o abikú volte não são favoráveis; quer em promessas de bom tratamento, caso eles fiquem no mundo. A frequência com que se encontram, em país yorubá, esses nomes em adultos ou velhinhos que gozam de boa saúde, mostra que muitos abikú ficam no mundo graças, pensam as almas piedosas, a todas essas precauções, à ação de Òrúnmìlà, e à intervenção dos babalaôs.

Alguns nomes dados aos abikú:

Aiyédùn – a vida é doce

Aiyélagbe – Nós ficamos no mundo

Akúji – O que está morto, desperta

Bánjókó – Senta-se comigo

Dúrójaiyé – Fica para gozar a vida

Dúróoríìke – Fica, tu serás mimada

Èbèlokú – Suplica para que fique

Ilètán – A terra acabou (não há mais terra para enterra-lo)

Kòjékú – Não consinta em morrer

Kòkúmó – não morra mais

Kúmápáyìí – A morte não leva este daqui

Omotúndé – A criança voltou

Tìjúikú – Envergonhado da morte (não deixa a morte te matar)

As cerimônias para os abikú parecem ser pouco frequentes entre os yorubás, a única assistida por Pierre Verger, à cerimônia foi feita pela tanyinnon encarregada do culto aos deuses protetores de uma família tradicional do bairro Houéta, onde em uma casa, num canto da sala principal, oito estatuetas de madeira com 20 centímetros de altura e eram colocadas sobre uma banqueta de barro.

Todas vestidos de panos da mesma qualidade, mostrando pela uniformidade de suas vestimentas, pertencer a uma mesma sociedade (egbé). Seis destas estatuetas representam abikú e as outras duas Ibeji. As oferendas consistiam de oká (pasta de inhame) obèlá (espécie de caruru) èkuru (feijão moído e cozido nas folhas) eran dindi, eja dindin (carne e peixe fritos) que, depois da prece da tanyionnon e da oferenda de parte desta comida às estatuetas, foram distribuídas pela assistência, o que indica que nada tem a ver com “crianças já nascidas feitas no santo”.

Ainda no conceito religioso, levando-se em conta a condição destas crianças, algumas pessoas não precisam ser raspadas ao se iniciarem. Esse é o caso principalmente das crianças que nasceram fadadas à morte, mas que venceram o trágico destino (abikú). Considerando os aspectos de seu nascimento, por exemplo: as crianças que nasceram pelos pés, com o cordão umbilical em volta do pescoço, depois de vários abortos, que foram abandonadas ao nascer ou cujas mães morreram ao dar à luz, venceram o destino. No caso das crianças cujo as mães morreram ao nascerem, se o abikú for indevidamente raspado poderá levar o seu “Pai de Santo ou Zelador” (ou seja, aquele que lhe deu a vida na religião) à morte.

Sob todos estes aspectos, é evidente que para os Yorubás, todo natimorto é abikú e apesar de não haver referencias sobre o aborto, também não há indicações contrarias sobre a relação entre ambos. Contudo, fica claro a necessidade e a importância de todos os que desejam se iniciar no culto de religião Yorubá, comunicar tais condições ao seu Babalorixa ou Yialorixa, os quais através da consulta a Ifa possam identificar a existência de um Abikú.

 

 

Referência:Pierre Verger, Afro-Asia NO. 14, 1983, A Sociedade Egbé orun dos Àbíkú, as crianças nascem para morrer várias vezes, Pierre Verger, pg. 138 a 160

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